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Wynton Marsalis vem seguindo a mesma trilha dos mestres Duke Ellington e Charles Mingus enquanto compositor, músico e chefe de orquestra. No quesito compositor, Wynton Marsalis tem provado que é não só um dos mais criativos, mas um dos mais importantes compositores da música norte-americana atual - senão o maior e mais importante compositor da sua geração, haja vista seu tino criativo que vem lhe permitindo - anos após anos - criar obras grandiosas como a suite In this House, on this Morning (1992) composta para septeto e o oratório Blood on the Fields (1994), obra para big band e vozes que ganhou o prêmio Pullitzer em 1997, após uma revisão que lhe deu o formato efetivo e uma calorosa reestréia nos palcos do Lincoln Center, em Nova Iorque. O que assusta em Wynton Marsalis, portanto, é sua capacidade de criar obras em diversos contextos e temáticas, sem lançar uma única peça que seja semelhante à outra subsequente: ou seja, há uma grande preocupação de expressar sua indentidade original através de novos arranjos e novas sonoridades a cada peça que ele compõe. A sua escrita e seus arranjos são tão inteligentes que chegam a confundir o ouvinte no sentido de não deixar claro qual parte é composta e qual parte é improvisada.
Em 1992, Wynton Marsalis, recém-empossado como diretor artístico do Jazz at Lincoln Center (que ele ajudou a fundar em 1987), teve a honra de ser o primeiro trompetista e jazzista a ter uma obra comissionada pelo Lincoln Center. A obra que ganhou a comissão: In this House, on this Morning, uma suíte de duas horas de duração totalmente inspirada no gospel das igrejas afro-americanas. A obra teve sua estréia no grande palco do Avery Fisher Hall - mesmo palco onde o maestro Gunther Schuller estreara a inacabada suíte Epitaph de Charles Mingus em 1989 - e foi um sucesso de público e crítica, chegando a causar grande emoção na platéia. Tal como Duke Ellington compôs a suíte Black, Brown on the Beige e John Coltrane compôs a sua A Love Supreme, Wynton Marsalis compôs uma suíte jazzística que evidencia ou seu sentimento para com Deus e o Evangelho. Muito mais do que apenas dedicar essa composição ao Senhor, o compositor imprimiu suas impressões relacionadas à tradição protestante na música norte-americana através de verdadeiras referências sonoras dos cultos gospel, com partes escritas e improvisadas que fazem perfeitas alusões aos hinos e louvores, às orações, aos sermões dos reverendos, aos sinos das igrejas, às entidades divinas do Pai, Filho e Espírito Santo e até à recepção da irmandade depois do serviço. Quem é protestante ou já assistiu filmes norte-americanos em que muitas das cenas se passam em igrejas Batistas e Metodistas de New Orleans ou Georgia, saberia detectar com facilidade os elementos do gospel presentes nesta peça. E, também, os próprios títulos das faixas já dizem quais aspectos o compositor quis expressar.
Diz Wynton Marsalis em seu site que, embora ele não tenha passado sua infância e adolescência em igrejas, a sua vontade e inspiração para compor essa peça surgiu dentro dos seu próprio septeto, já que a maioria dos seus sidemans foram criados sob as doutrinas do evangelho. Tanto que nas regulares viagens e turnês da banda, os músicos de septeto sempre entoavam e tocavam as canções do repertório gospel durante os ensaios ou durante os tragetos de ônibus. Então, percebendo a estreita relação dos spirituals com o jazz, Wynton passou a incluir o gospel dentro da sua recente obsessão tradicionalista, da mesma forma que incluíra o blues e os rítmos de New Orleans a partir de 1987. O resultado do estudo ao gospel, foi essa suíte intitulada In this House, on this Morning, onde Wynton procurou fazer uma transição entre a harmonia básica do blues e do gospel e a harmonia moderna do jazz contemporâneo, fazendo alusão à toda a espiritualidade que as melodias do blues e do gospel expressam em suas abordagens sem, contudo, soar apenas básico - ao contrário, ele compôs um verdadeiro tratado contemporâneo baseado na música sacra. Além dos contrastes criados entre os "acordes perfeitos" do blues e do gospel com leves dissonâncias e os modos da harmonia moderna, Wynton também foca seu discurso no rítmo, usando beats característicos do Crescent City, New Orleans - rítmos em 6/8 e 7/4 bem próximo aos aspectos das habaneras, ragtime, strides e do second line - e, por fim, nos arranjos sutis com palmas, surdinas, vozes, pandeiro e solos com efeitos rangidos. Após ter se tornado um sucesso de público e critica, a suíte In this House, on This Morning vem sendo executada pelo Wynton Marsalis Septet no mundo todo até os dias de hoje. Com vocês eu deixo uma seleção de dez faixas em pouco mais de 60 minutos de melodias espirituais e arranjos fantásticos! A genial personalidade musical impressa nesta suíte - que não chega a ser uma peça das mais complexas de Wynton Marsalis - já prenunciava, em 1992, ser o motivo principal que levaria o trompetista e compositor a ser o primeiro negro e jazzista e ganhar o prêmio Pulitzer em 1997.
Boa Audição!
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